quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Artigos CJ: O desafio da Agenda 21 escolar no Estado do Pará

No preâmbulo da Agenda XXI se destaca o agravamento da pobreza, analfabetismo, doenças, fome e da deterioração dos ecossistemas. Quase vinte anos depois, o que colocaríamos se fossemos reescrevê-lo? Talvez tudo isso e poderíamos acrescentar que é conseqüência da "crise mundial", como alguns jornais insistem em publicar, porém, vemos que essa crise não é de hoje.
Resgatando o que se propõe a agenda XXI, o seu principal objetivo é a promoção e garantia da qualidade de vida para sociedade planetária. O Estatuto da Criança e do adolescente, Declaração Universal dos Direitos Humanos e Constituição federal são categóricos em afirmar o direito ao desenvolvimento sadio, harmonioso e em condições dignas de crescimento. Mas a distância entre as cuidadosas citações e nosso cotidiano ainda é discrepante e o reflexo disto é verificado principalmente no ambiente escolar.
É em meio dessa crise civilizatória, da cultura do ser e do ter que a COM-VIDA procura disseminar um novo modelo de relação, fazendo-se valer e praticar o que consta na Agenda XXI: o bem estar coletivo, desenvolvimento de fato sustentável, de uma sociedade fraterna e pluralista.
O Estado do Pará é um dos que compõem a Amazônia brasileira, com grandes dimensões geográficas, porém com dificuldades de acesso, muitas vezes por via fluvial através de sua imensa malha de rios. Vale ressaltar que, ainda na ditadura, o "integrar para não entregar", configurou um agravante na perda da cultura e identidade regional, fazendo uma ocupação desmedida por pessoas oriundas de diversas regiões, sem preparação, consciência e respeito ao modo de vida local.
Entretanto, o Pará é muito rico em recursos naturais, tendo assim um promissor potencial de desenvolvimento local de forma sustentável, aliado ao vasto conhecimento que os povos tradicionais têm domínio. Nas cidades afastadas do desenvolvimento urbano, ainda percebemos fortes características das culturas indígenas, que ficam claras na receptividade, confiança e acolhimento da população interiorana a conteúdos relacionados ao cuidado com a terra. Pessoas com sensibilidade, solidariedade, simplicidade, amor e sentimento de apego ao seu lugar.
Neste contexto, o Projeto COM-VIDAs pelo Pará englobou 13 municípios, com acompanhamento de um ano inicialmente em 17 escolas, que veio a aumentar para 40 escolas com a aceitação do projeto nos municípios. Foram facilitadas pelo CJ oficina com os eixos temáticos: Educação Ambiental, Participação Política, Educomunicação, Empreendedorismo, Fortalecimento Organizacional, além de Elaboração de Projetos e Avaliação e da Oficina de Futuro que abriam o ciclo de formações.
Em Santarém Novo as oficinas do projeto foram realizadas em quatro escolas que já possuíam a comissão e mostraram-se motivadas a potencializar as ações com a visita do Coletivo Jovem de forma periódica. As COM-VIDAs foram batizadas pelo nome das comunidades: Jutaizinho, Santo Antônio, Peri-Meri e Santarém Novo.
A aceitação das ações da COM-VIDAs foram bastante positivas, principalmente por serem relacionadas à recuperação e conservação do Rio Jutaí. Os jovens estudantes promoveram diversas campanhas e mutirões de limpeza do rio, alertando sobre a importância do mesmo para a pequena cidade, realizando debates e informações na única praça pública da cidade.
Experiência exitosa também ocorreu em Moju, a COM-VIDA atuou na comunidade com campanhas educativas, criação de um jardim escolar e ganharam reconhecimento da gestão da escola, mesmo diante do descrédito de vários de seus colegas, jovens estudantes da escola. Já em Maracanã, com a oficina de participação política os jovens participantes sentiram-se incomodados com as decisões e ações da gestão pública municipal e se organizaram para cobrar melhorias principalmente relacionadas aos recursos naturais. Em Tracuateua e Augusto Correa, os alunos e professores externaram a carência de momentos de formação como os fornecidos pelo projeto e seguiram promovendo intervenções na escola modificando suas rotinas.
Vale ressaltar municípios que não participaram do projeto e são frutos do processo de Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, prosseguindo de forma autônoma suas atividades. Marabá foi destaque na II CNIJMA em 2006, possui 27 COM-VIDAs em atividade e já realizou o III Encontro Municipal de COM-VIDAs, legitimamente construído pelos estudantes, professores e gestores. Neste sentido, temos o exemplo de Colares, onde o professor da rede pública estadual, Eduardo Kalif, tomou conhecimento do trabalho da COM-VIDA e do CJ através da III CNIJMA e atualmente coordena o Projeto Cinema e Meio Ambiente na Escola: Criando as COM-VIDAs.
Percebemos nos avanços semelhanças que consideramos interessantes: Os municípios mencionados possuem acesso facilitado à comunicação e transporte, além do compromisso de professores e gestores com as comissões somado ao forte apoio da gestão municipal, através das Secretarias Municipais de Educação. Estes municípios possuíam uma gestão compromissada e acessível, que davam total apoio as atividades das COM-VIDAs e do Coletivo Jovem.
No entanto, também ressaltamos aspectos análogos nas experiências de COM-VIDAs que não obtiveram boa aceitação e mobilização da comunidade. Os municípios mais distantes, como Oeiras do Pará, Limoeiro do Ajuru e Bagre, onde se gasta, partindo da capital, mais de 12 horas de viagem via fluvial, através de embarcações precárias, comprometendo o acompanhamento das atividades. Isto inviabiliza também a gestão pública estadual, que não consegue dar suporte e fiscalização necessários, alimentando um forte sentimento de esquecimento e de descaso a estas populações.
São nestas condições que se atenua a prostituição e trabalho infantil, tráfico de animais, venda ilegal de madeira, extrativismo predatório, entre diversos problemas ambientais que são vistos como fatos corriqueiros, compondo o cotidiano destas populações. Como resultado disto, vemos o desestímulo à participação política e mobilização social dos jovens, que ficam a mercê de famílias inteiras que monopolizam a administração pública, perpetuando-se e fortalecendo a premissa de que a situação jamais se reverterá.
Outro grande desafio é a aceitação da proposta da COM-VIDA em cidades com elevado desenvolvimento urbano. Dentre as escolas que não obtiveram um bom desempenho no projeto, várias pertencem à região metropolitana de Belém ou sofrem grande influência do meio urbano. O estilo de vida pautado no consumo, em padrões expostos pela mídia, egoísmo e crescimento econômico individualizado foram fatores fulminantes para o insucesso das atividades.
Como abordar a educação ambiental crítica, ressignificação de valores, sentimentos, coletividade e participação diante de jovens, pais, educadores e gestores que consideram este assunto pura balela? Como construir sonhos, discutir dificuldades e planejar ações coletivas nesta realidade individualista? Como trazer esperança a jovens que são rotineiramente condicionados a viver sem perspectiva?
Percebemos nestes casos que somente construir uma árvore dos sonhos não basta. Devemos encontrar outras formas de abordagem e intervenção, onde primeiramente sensibilize as pessoas a cerca dos Direitos Humanos, de seus valores, da democracia, garimpando neste universo indivíduos com potencial de transformação, de participação e compromisso, tornando-o aliados neste desafio.
Investir na formação política da juventude voltada para a participação em instâncias decisórias, analisando criticamente ações dos órgãos públicos e seus representantes. Desta forma, incluir a educação ambiental em políticas públicas e nos planos municipais de educação, pois como vimos, o apoio governamental é fator de sucesso nas ações das Comissões e conseqüentemente na melhoria da qualidade de vida a que se objetiva a COM-VIDA. A criação de núcleos municipais de Coletivos Jovens vem a auxiliar no fortalecimento das comissões, superando as dificuldades de acompanhamento. Um programa estadual de juventude e meio ambiente auxiliaria no suporte a esses jovens, fortalecendo-os e recriando a perspectiva de que podemos juntos modificar este quadro. Assim em coletivo cuidamos do Pará, da Amazônia, do Brasil e do mundo!

Por: Amanda Genaque,Ana carla e Gilson dias.

Referências Bibliográficas
Agenda XXI Brasileira
Constituição Federal Brasileira
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Estatuto da Criança e do Adolescente

0 comentários: