sexta-feira, 14 de agosto de 2009

ARTIGOS CJ: Entrelaços da Gestão Escolar e COM-VIDA.

Na vivência de construção de Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola (COM-VIDA), que vem levantar a importância da educação ambiental no ambiente escolar, podemos verificar a pertinência de se reforçar este trabalho com todos os atores e atrizes deste processo, e em específico avaliar o papel da gestão da escola na efetivação desta prática educativa.
Desta forma, vale resgatar as transformações na prática administrativa escolar por qual se passou a educação a partir da década de 80. O Brasil viveu um importante processo de afirmação da democracia e de grandes lutas pela mudança na política e conseqüentemente da sociedade. Por entender a escola como instituição social que deve buscar a socialização do saber, da ciência, da técnica e das artes produzidas socialmente, e, como espaço de formação do cidadão crítico, participativo, consciente de seus deveres e obrigações, diversos profissionais da educação organizados, aliados à contestação dos alunos, entram na luta contra a realidade de autoritarismo e burocratização, e assim nasce em 1988 o princípio da gestão democrática do ensino, pressionada por estes a ser assimilada ao texto da Constituição Federal Brasileira.
Algumas pré-condições demonstram a prática da gestão democrática na escola, entre elas a transparência das informações, coerência da gestão com o processo democrático mais amplo da sociedade, controle e fiscalização da efetivação das ações, abertura para debates e votação para decisões coletivas e normas de gestão regulamentadas pela maioria.
A gestão democrática em educação está intimamente articulada ao compromisso sóciopolítico com os interesses reais e coletivos, de classe, dos trabalhadores, extrapolando as batalhas internas da educação institucionalizada. Em uma sociedade rasgada por contradições e com divisões de classes, fica difícil assimilar e pensar em "bem comum", e desta forma por em prática a gestão democrática é entendido até mesmo como utopia para alguns profissionais. Porém, é preciso entender que esta não pode ser vista como uma ferramenta ou técnica de gestão, deve-se levar em consideração o contexto político, econômico e social que influencia o cotidiano escolar. Assim, é necessário promover a auto-organização dos envolvidos no processo educacional, buscando e criando espaços públicos para discutir os interesses e implementar ações.
Para tanto, será exigida a participação de toda a comunidade escolar neste processo com distribuição das responsabilidades, que terá como resultado a democratização das relações que se desenvolvem na escola além de fortalecer vínculos dos membros com a instituição e com o trabalho proposto, sendo necessário ampliar o sistema de informações, e a comunicação surge como ferramenta para as práticas democráticas, pois ninguém pode participar conscientemente se não for bem informado sobre o assunto em questão.
O gestor escolar passa do papel meramente burocrático para liderança política, cultural e pedagógica dentro da escola, sem abrir mão da competência técnica, exigindo do mesmo uma releitura de suas atividades e atitudes, incentivando-o a buscar melhoria e avanço nos estudos relacionados à gestão, política e relações pessoais, que sendo bem assimilado e aproveitado servirá como espelho para a comunidade escolar, além de estudar as influências dos grupos no meio interno e externo da instituição, quais suas expectativas em relação aos trabalhos desta. Fecha-se então o ciclo das relações democráticas na escola, onde todos possuem um papel importante para a construção da gestão democrática.
Tudo isto ganha maior importância se considerarmos que a escola tem uma contribuição indispensável, embora com limitações, para a afirmação da história das classes populares. Romper com as barreiras do autoritarismo e implementar a democratização revela-se então como grande desafio para mudança da sociedade, da cultura das relações, além de favorecer a ampliação da compreensão de mundo, de si mesmo, marcando sua presença de forma responsável e consciente, no exercício concreto da cidadania.
Avaliando o papel da gestão democrática, fica bastante claro a importância da COM-VIDA na escola, pois a mesma em sua construção na Oficina de Futuro e, por conseguinte na prática vem trabalhar a participação, coletividade, educomunicação e planejamento. A comissão será o pleno exercício das práticas democráticas à luz da educação ambiental, que se configura como uma educação amorosa, educação do cuidado para com a terra e para com a humanidade.
A educação ambiental por envolver aspectos históricos, naturais e sociais nas escolas, fatalmente trabalhará no âmbito da transdisciplinaridade, que de acordo com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) (1980) é um princípio metodológico privilegiado, que poderá trabalhar a educação ambiental crítica no ambiente escolar como um todo. Esta requer a construção de novos objetos interdisciplinares de estudo através da problematização dos paradigmas dominantes, da formação dos docentes e da incorporação do saber ambiental emergente em novos paradigmas curriculares.
Portanto, para trabalhar questões ambientais e de melhoria na qualidade de vida nas escolas é preciso envolver toda a comunidade escolar, equivalente aos princípios da gestão democrática, e daí entra o papel da gestão escolar para administrar este envolvimento. A gestão escolar deve estar alinhada ao que realmente significa educação ambiental, libertando-se das amarras de que esta está sumamente ligada à conservação da natureza e melhoria do espaço físico da escola. A gestão é desafiada a reconhecer a educação ambiental, e, conseqüentemente a atuação da COM-VIDA, como força a somar com os ideais da gestão democrática.
Esta força parte principalmente da ameaça à vida humana e do planeta, e esta ameaça caminha a desconsiderar a classe social dos indivíduos. A vida de todos se vê em risco, todas as classes sofrem com a baixa qualidade de vida gerada pela violência, pela desenfreada urbanização e poluição do meio. Faz-se necessário então um movimento coletivo para que se garanta o bem comum.
Trabalhar o coletivo configura-se um dos maiores desafios da gestão escolar sob a perspectiva da educação ambiental, que trabalha com a luta pela igualdade, e esta luta pela igualdade é uma luta pela democracia. A educação ambiental por trabalhar uma forma de educar para a sensibilidade pode dar início ao trabalho da mudança de comportamento nas relações sociais dentro e fora da escola, que percebemos estar adoecida em nossa sociedade, desta forma pode-se dar abertura a entrada e assimilação de novos conceitos com maior facilidade e permitindo que todos acompanhem essa veloz dinâmica da geração do conhecimento, tão valorizado e ao mesmo tempo desvirtuado pelos interesses dominantes, de maneira a contribuir para a boa convivência com o próximo e com o meio, contribuindo assim para o real sentido de felicidade, dentro da simplicidade.


Referências Bibliográficas:
FERRARO, LUIZ ANTÔNIO JÚNIOR (Org.). Encontros e Caminhos: Formação de Educadores(as) Ambientais e coletivos educadores. Brasília: MMA, Diretoria de Educação Ambiental, 2005.
HORA, DINAIR LEAL DA. Gestão Democrática na Escola: artes e ofícios da participação coletiva. Campinas: Ed. Papirus, 1994.
________________. Formando COM-VIDA Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola: Construindo Agenda 21 na Escola. Ministério da Educação, Ministério do Meio Ambiente. Brasília: MEC, Coordenação Geral de Educação Ambiental, 2004.

Texto:Ana Carla Franco,Revista Agenda 21 e Juventude n°3.

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